Impaciência.
Ah, as invasões… Não há um lugar que seja sempre nosso, no qual só quem deixamos ultrapasse o umbral. Não… Nossos velhos deuses não nos contradizem, o que era um lar para vestais, servas de uma Mãe, local de comunhão-celibato-solidão, hoje é visitado por ávidos turistas com máquinas digitais procurando por algo que não sejam eles mesmos, hoje eles fotografam um lugar onde tempos atrás nunca poderiam entrar, strangers, hereges. Apontam o dedo e ruminam o quanto era interessante a vida daquela época. Mas comentam com aquela superioridade, como se ser uma vestal, como se construir estátuas, como se acreditar nos velhos deuses fosse ingenuidade. Sabemos que não há espíritos dentro de árvores e que fendas na Terra não falam.
Mas agora compreendo um pouco do teatro elisabetano e com muita graça vejo esses mesmos turistas voltando aos seus lares, se sentindo muitos acolhidos e tomando uma xícara de chá enquanto transferem bits de câmera para máquina.
E hoje vejo uma criança me perguntando por que nós colocávamos um plástico dentro de uma caixa para capturar um momento, vejo essa mesma criança fazendo uma careta e me explicando como é muito mais fácil colocar aquele momento em um chip, vejo essa mesma criança me perguntando por que ninguém tinha pensando nisso antes, já que era tão óbvio e muito mais facilitador.
Ora, Shakespeare, I shall foresee hypocrisy till dawn of my days.
E aí me vejo invadido, sinto nostalgia, ainda gosto de colocar plástico dentro de caixas e não sei bem por que. Talvez todas as invasões sejam causais, talvez não sejam intencionais, é um fluxo que segue. Mas o efeito é devastador, ser chamado de antiquado e ser estudado com interesse acaba com qualquer realidade, é assim que deuses deixam de ser lembrados; Nenhum deus se renova, são eternos: e por isso fadados. Fadados ao que? Não importa, nenhum rei rege acorrentado, seja a corrente qual for.
Hoje, uma vespa entrou em meu quarto, zuniu, bateu com suas asas na redoma de luz, incomodou com seu vôo aleatório. Impacientei-me e ela morreu. Eu não sei onde está o deus dela agora. E isso me levou a pensar.
Ora, Shakespeare, fare thee well.
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Talvez esteja junto com o pedaço de plástico que colocávamos da caixa preta…
Talvez seja como todo o resto.
Apenas uma lembrança. Aquela pela qual alguns não querem que deixe de existir…
Quem sabe…