Diário.

17mai11

I

“28 de Agosto de 1930 da nossa Boa Era Cristã.

Imagino que agora o relógio marca três e um quarto de hora.

Cheguei a esse Cortiço por volta de meio-dia, de ontem, 27. Um lugar enlameado de terra cinzenta. Onde tudo é uma soma de cigarros terminados e roupas lavadas na pedra.

Agora, ao mover a cabeça, vejo, além de minha mesa de madeira barata, uma lâmpada extraordinária que transforma o cinza em amarelo, uma cama para solitários de madeira barata e uma mesa ao lado da cama. Cadeira não há, pelo que soube o ultimo desse quarto a quebrou em misteriosas circunstâncias, aproximei a mesa à cama para que pudesse forjar o mínimo de conforto.

Fugidio, cá estou. Você, diário mantido à dura pena da escrita, já sabe o que me aconteceu. E não lamentou por mim em momento algum. Venho a pensar que se trata de um péssimo companheiro.

Ao chegar, não fui recebido. Mandaram-me sentar em uma sebosa mesa à cozinha, enquanto a adiposa senhoria picava, despelava e mergulhava em água minhas palavras, minhas histórias e meus ideais sobre o mais sofisticado presente a se dar ao seu amante.

De alguma forma pude passar como mais um entre tantos. Todos os que olharam sabiam que era de fora desse círculo. Por mais que meus anos de despudor tenham marcado o rosto, não cumpria a norma de ter nascido em uma choupana nas mãos empoeiradas de uma parteira. Teria também de acreditar que o que ela faz, com a garrafa vazia de whiskey barato no peito do recém-nascido, me preveniria de qualquer déficit pulmonar. Que modo de pensar mais rústico.

Modo de pensar rústico, sim, mas sempre estive mergulhado em tudo isso. Tanto que não fiz atraso nenhum para me juntar a dois inquilinos que me ofereceram conhaque e cigarros. Desse momento em diante, só me lembro do vislumbre de uma bela jovem, na idade em que, de onde eu vim, elas se casam. Tratou-se somente de uma luz na embriaguez, que logo foi embora quando a garrafa parou em minhas mãos novamente.

Do resto, pouco lembro, certamente fiz uns amigos e fui apresentado para todos.

Ah, lembro-me que aquela luz na embriaguez perseguiu-me no sono na forma de uma bela e comum e jovem morena.”



One Response to “Diário.”

  1. 1 Thiago Matheus

    Parece-me que Borges lhe fez bem.

    No mais vou esperar que se acomode, não me importo com cadeiras mas conhaque e cigarros se mostram mais úteis para mim.

    Até breve meu amigo.

    Longos dias, belas noites.


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